- Diário de Cuiabá - MT
- 10.07.2012 - 03:00hs
O verso incendiário do poeta Toninho
Como bom poeta que é, faz críticas apoiado em rimas e perpetua sua ideia pelas palavras que no seu caso, nunca são colocadas numa ordem comumVinicius Masutti*
Você conhece o Toninho? O Toninho conhece você. Porque Toninho é poeta e o poeta conhece a gente. A gente e as palavras, que ficam todas ouriçadas e envaidecidas quando são postas numa poesia. Simplesmente porque num poema encontram sentido e juntas tornam-se um estímulo e podem mudar um pensamento.
O nome é Toninho mesmo, no diminutivo, porque ainda que não o conheça ficará íntimo ao ler uns versos seus, mas caso queira formalidades (o que não cabe num poeta) chame-o de Antônio Carlos Lima.
Antoninho vem de uma Terra Boa. Não é eufemismo não, é nascido na cidade de Terra Boa, no Paraná. Também sou de lá (do Paraná), mas quando conheci Toninho, me disse que boa mesmo é a terra onde se enraizou, o Mato Grosso. E após um bom tempo de exploração concordo com ele. Aqui achei uma enorme diversidade artística e cultural, que como o cerrado cresce na raça, com muito sol e pouca água (e raras regadas governamentais). Toninho é uma dessas árvores de que falo, pois assim como esta região em que vivemos, o poeta é formado entre três biomas. Tem além da força do cerrado, a vivacidade do Pantanal e a vastidão da Amazônia.
Disse uma vez sobre o pantanal:"Vi o sol se dissolver em suas águas abanado por tantas asas." e contou que "O pirilampo pisca seu giz de luz e rabisca o quadro negro da noite". Belas observações de poeta, que não é cientista, mas tem total ciência sobre a vida e exala sapiência. Como bom poeta que é, faz suas críticas apoiado em rimas e perpetua sua ideia pelas palavras que no seu caso, nunca são colocadas numa ordem comum. Toninho faz seus versos e os espalha sempre sob uma nova forma. Seu primeiro 'livro' foi publicado em formato de envelope. Isso mesmo, teve a ideia genial de colocar seus poemas num envelope para que pudessem ser enviados e espalhados pelos quatro cantos desse nosso mundo oval. O livro-correspondência se chamava "Pé no céu que a terra pirou". Aí vai um dos argumentos para o título: "Maquiaram tanto a liberdade que ela acabou virando estátua!".
Eis a ácida e adocicada crítica que Toninho compõe. Faz isso de forma natural e pretende tirar o leitor de seu mundo comum e habitual. Numa de suas grandes ironias, desenvolveu seus poemas para que coubessem numa caixinha. Sim, nessa caixinha que todos carregam sobre os ombros, mas para simbolizar isso, de fato encaixotou seus versos numa caixa de fósforos. Primeiro em parceria com Luiz Renato, numa caixa intitulada "Sakôfonia" em 1986. Mais tarde as caixas chamaram-se respectivamente "Chama viva", "Caixa 02" e "Poesia encaixada" lançada em 2002.
Tente riscar um fósforo numa dessas caixas. Certamente incendiará suas certezas e causará algumas queimaduras em seus conceitos. Essa é a intenção da poesia. A arte tem que incomodar, causar, queimar... para que possamos (re)pensar.
No ano passado publicou seu primeiro livro por uma editora, a Carlini e Caniato. E ainda que o livro tivesse o formato comum, o que encontramos dentro dele continua embaralhando nossas ideias, o livro chama-se "A!Pô!Cá!Ali!Psiu!". Dou um bom exemplo disso: "Questão ou não questão? Eis o ser".
A poesia é combustível para a indagação que traz sempre boas descobertas. Encoberta pelas publicações editoriais está "Língua de fogo", um livreto de bolso feito em papel reciclado e que traz a combustão poética de Toninho. Foi publicado em 2006 e só é encontrado nas mãos do poeta, de onde consegui o meu. Difícil é encontrá-lo, mas quando isso acontece, bons papos surgirão. Acredite no que falo. O poeta fala que "Ter um amor distante é um ter remoto".
Se ainda não conhece Toninho, sugiro que o procure. Talvez encontre-o dentro de uma caixinha de fósforo, ou de um envelope, ou até mesmo dentro do bolso, mas certamente o encontrará entre as palavras, dentro da poesia que na verdade é a parte de dentro da vida. Enquanto isso não acontece, deixo as pistas para que o procure e também um pouco mais de sua poesia. Espero que goste e a perpetue:
Árvore da vida
Ave marinha/cheia de graxa;/pomba da paz,/negra de fuligem,/perguntai aos céus/se ainda resta,/pura de origem,/pelo menos uma/floresta virgem./Talvez lá se encontre/a virgem planta,/mãe do benedito fruto/que cure a loucura do capeta,/apague o fogo da besta/e evite a queda do bruto/sobre o planeta.
*Vinícius Masutti é poeta, estudante de filosofia e colabora com o Dc Ilustrado (viniciusmasutti@yahoo.com.br)




