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04/07/2008 - 19:34

Pra que serve a varinha do maestro?

Homero Fonseca

Herbert von Karajan: o maior mito da regência, alvo preferencial de Lebrecht
“0 ‘grande regente’ é um herói mítico dessa espécie, artificialmente criado para um propósito não musical e fomentado por necessidade comercial. "Regência orquestral como atividade de tempo integral é uma invenção de natureza sociológica, não artística - do século XX"', admitiu Daniel Barenboim, um eminente profissional. "Não há profissão em que um impostor possa entrar com mais facilidade"', escreveu o astuto e resignado violinista Carl Flesch. O regente existe porque a humanidade precisa de um líder visível ou, no mínimo, de uma figura de proa identificável. Sua raison dêtre musical é completamente secundária.
Ele não toca nenhum instrumento, não produz nenhum ruído, e no entanto transmite uma imagem de produção de música crível o bastante para lhe permitir tomar as recompensas do aplauso daqueles que realmente criaram o som. Em termos musicais, afirmou o polemista Hans Keller, "a existência do regente é, essencialmente, supérflua, e é preciso alcançar um elevado grau de imbecilidade musical para achar que observar a batida, ou, para esse fim, o semblante inane do regente, torna mais fácil saber quando e como tocar do que simplesmente ouvir a música".' Essa heresia, expressa em termos menos polidos, pode ser ouvida onde quer que músicos de orquestra se reúnam para afogar suas muitíssimas mágoas. "Boa parte desses sujeitos são mestres da encenação", resmunga James GaIway, ex-flautista da filarmônica de Berlim. Um mau regente é a maldição da vida cotidiana de um músico; e um bom regente não é muito melhor. Ele dá ordens que são redundantes e ofensivas, exige um nível de obediência desconhecido fora do exército e pode ganhar num concerto tanto quanto todo o resto de sua orquestra.”
Norman Lebrecht, "O mito do maestro", editora Civilização Brasileira, 2002.

 
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